As desculpas esfarrapadas de Suely e o estado fictício

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Mais de três anos depois de iniciado seu governo, que tem se mostrado um tanto desastroso, a governadora Suely Campos (Progressistas) ainda teve a coragem de fazer um discurso ao mesmo tempo ufanista e vazio, colocando a culpa pelos desacertos da sua administração nos erros da gestão anterior. Ao discursar na Assembleia Legislativa nesta terça-feira (20), Suely disse que é preciso coragem para governar um estado em meio à crise que o País vive e ainda com heranças malditas como um empréstimo impagável de R$ 2 bilhões feito pelo seu antecessor, o tucano José de Anchieta (PSDB).

A questão é que as dificuldades administrativas que Suely alega ainda hoje ter encontrado no governo eram suas conhecidas antes mesmo da eleição de 2014. Aliás, foi prometendo solucionar os problemas criados por José Anchieta que ela se elegeu. No entanto, repito, mais de três anos depois, sobram justificativas que não mais se justificam e faltam ações efetivas de governo para melhorar a vida da população.

Decisão do STF deu confiança a Suely

Quem esteve presente na solenidade de abertura dos trabalhos na Assembleia Legislativa, na manhã de ontem, viu uma Suely demonstrando certa impetuosidade, levada pela vitória da véspera, que foi conseguir afastar, pelo menos por enquanto, a possibilidade de um processo de impeachment no Poder Legislativo. Primeiro porque o ministro Alexandre de Morais, do STF, declarou inconstitucionais as normas estaduais – artigos da Constituição do Estado de Roraima e do Regimento Interno da Assembleia Legislativa – que tratam sobre o impeachment do governante estadual. Depois porque o presidente da Casa, deputado Jalser Renier (Solidariedade), teve uma repentina mudança de postura quanto à sua vontade de dar celeridade aos pedidos de impeachment que dormitam na gaveta da Mesa-Diretora do Poder Legislativo. A mudança de discurso foi tal que já há quem cogite um suposto acordo entre ele e a governadora com vistas ao pleito vindouro.

O estado fictício de Suely Campos

Suely falou do que considera ser os avanços da sua gestão, mas esqueceu de falar dos problemas e de reconhecer os erros

O fato é que a governadora Suely fez um discurso que retratava um estado completamente diferente deste em que nós vivemos e que conhecemos na nossa vida cotidiana. As palavras da governadora desenharam um estado próspero, desenvolvido, com educação e saúde de qualidade, com segurança pública irretocável. Ela falou sobre obras ainda não entregues, como se prontas estivessem. Frisou o fato de os professores ganharem um dos maiores salários do Brasil, discorreu sobre programa habitacional para servidores e sobre o asfaltamento de alguns míseros quilômetros de estradas rurais. Mas nada disse sobre as ações efetivas para minimizar os efeitos da crise migratória. De passagem, afirmou apenas que o Poder Central deve enviar alguma ajuda.

Suely não falou nada sobre a insegurança nossa de cada dia, sobre o sucateamento da Polícia Militar, sobre as fugas em massa de detentos da Penitenciária Agrícola. Nada foi dito sobre o aumento da criminalidade e da ocorrência de assaltos à mão armada em Boa Vista. Da última vez fugiram mais de 80 e nem metade dos fugitivos ainda foi recapturada. Suely nada falou sobre as condições precárias da grande maioria das escolas públicas estaduais. Mas destacou o processo de militarização de algumas unidades.

Governadora precisa aterrissar na realidade

Faltou Suely Campos reconhecer os erros da sua gestão, como o pouco ou quase nenhum investimento na melhoria das escolas públicas. Grande parte das unidades de ensino funciona em precaríssimas condições. Há escolas da Capital, Boa Vista, como é o caso da São Vicente de Paula, que para iniciar o ano letivo teve que ter suas salas de aula, mesas e cadeiras, pintadas pelos próprios professores, com dinheiro doado pelos pais para a Associação de Pais e Mestres (APM). Do contrário seria impossível começar as aulas.

Há casos de escolas que foram reformadas com dinheiro do bolso de deputados estaduais, que se comprometeram com a comunidade, mas que o governo não cumpriu com o acordo e o parlamentar teve que arcar com a despesa sozinho. Há estradas igualmente recuperadas a partir de vaquinha entre deputado e produtores rurais em Amajari.

Na abertura dos trabalhos legislativos de 2018, o deputado Jalser Renier fez um discurso conciliador e depois disse à imprensa que não pretende fazer o impeachment da governadora Suely

Faltou senso crítico e humildade

Suely Campos terminou seu discurso dizendo ser candidata à reeleição. Afirmou ser a governadora do Hospital das Clínicas, da Caravana da Mulher, do repasse das terras, do asfaltamento de vicinais (muito poucas, diga-se de passagem), da reconstrução da BR 210, que na verdade foi reconstruída com recursos federais, etc., etc. etc.

Mas não foi humilde para reconhecer que também é a governadora do nepotismo, do atraso no pagamento dos servidores, do atraso no repasse do duodécimo dos poderes; a governadora das fugas em massa na PAMC, dos recursos recebidos para a reconstrução da penitenciária e ainda não empregados. Com um pouco mais de senso crítico e humildade, Suely até teria conseguido fazer um discurso menos fantasioso e mais realista.

Reeleição? Isso seria loucura e irresponsabilidade do eleitor

Quanto à reeleição pretendida por Suely, que se declarou pré-candidata à renovação de mandato no pleito deste ano, todos nós, brasileiros e roraimenses, já estamos cientes de que o segundo mandato de um gestor público estadual ou federal é sempre muito pior que o primeiro. Foi assim com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que fez um primeiro mandato respeitável (apesar da compra da emenda da reeleição), mas um segundo cheio deficiências e atropelos; foi assim com Luiz Inácio Lula da Silva, que no primeiro mandato tirou milhões de brasileiros da miséria, mas no segundo mandato sucumbiu à corrupção; também foi assim com Dilma Rousseff, que foi razoavelmente bem no primeiro mandato e sequer terminou o segundo (apesar do cheiro de golpe), igualmente acossada por denúncias de corrupção.

Em nível local quantos segundos mandatos ruins tivemos? Um deles, o do próprio Neudo Campos, marido de Suely, que resultou num dos maiores esquemas de corrupção do Brasil até então, o rumoroso “caso gafanhotos”. Mais recentemente, tivemos o desastroso segundo mandato de José de Anchieta, que deixou o estado aos frangalhos. Agora, Suely, que já faz um governo cheio de deficiências e marcado por denúncias de nepotismo e corrupção, ainda sonha em se reeleger. Será que o eleitor roraimense vai ter coragem de apostar numa segunda tragédia anunciada?

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